01/02/2019

COMO DRIBLAR UMA POSSÍVEL CRISE NA PISCICULTURA EM RONDONIA

Artigo assinado por Paulo Henrique C. Martvi - Gerente de Território Aqua da Nutrizon.

 

Rondônia é um dos estados mais importantes na produção de peixes de cultivo no país e lidera a produção de peixes nativos, tendo como principais espécies o tambaqui, o pirarucu e o pintado. De acordo com o último anuário da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), em 2018, nosso estado produziu 72.800 toneladas e contribuiu para que a região Norte mantivesse a segunda posição na produção de peixes nativos (153.020 t). Mas tivemos um declínio de 5,4% na produção da piscicultura referente ao ano de 2017.

 

Vamos tentar buscar explicações para esta situação. Muitos dizem que Roraima está produzindo muito tambaqui. Realmente eles produzem uma “boa quantia”, mas por particularidades climáticas e de manejo, eles não “atrapalharam” nosso mercado. Mas então, qual ou quais as justificativas? E, o mais importante, como podemos contornar uma eventual “crise”?

 

Em 2016, o maior produtor brasileiro de pintados era o estado do Mato Grosso, mas não estocou a espécie e com isso tivemos um aumento no preço do quilo deste peixe. Devido à escassez de oferta nas pisciculturas do estado mato-grossense os compradores vieram até nós e isso estimulou nossos produtores a destinar uma parte das suas unidades para pintados. Vendo a melhora do valor do pescado, os produtores vizinhos voltaram a estocar a espécie e o preço do pintado despencou no mercado. Este cenário fez com que os piscicultores de Rondônia migrassem novamente para a produção de tambaqui. Foi um efeito “ioiô” que trouxe algumas dificuldades de comercialização.

 

Outro movimento encontrado nos anos de 2017 e 2018, foi a retomada das instalações de novas pisciculturas e ampliação de áreas já instaladas. De acordo com o Censo Agropecuário 2017, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Rondônia foi o segundo estado da Região Norte com 6.064 unidades de criação de tambaqui possibilitando um aumento na oferta deste pescado.

 

Para driblar os desafios ligados à produtividade e ao uso de tecnologias, nossos piscicultores vêm fazendo a lição de casa, organizando-se em associações e cooperativas, divulgando o produto e técnicas de produção através de “dias de campo”, palestras, fóruns com renomadas personalidades da aquacultura. Exemplo disso foi o “Tambaqui na Esplanada”, organizado juntamente com a entidade Lions, em Brasília, que culminou em um “churrasco” beneficente de aproximadamente seis toneladas de tambaqui no gramado da Esplanada dos Ministérios. O evento arrecadou alimentos não perecíveis doados a instituições.

 

Outro ponto a melhorar é a confiança de nossos produtores, já que temos um produto de excelente qualidade e extremamente saboroso. Necessitamos de pessoas dispostas a processar nossa matéria-prima, já que estamos passando por um momento de dificuldade, principalmente na comercialização do pescado. Por exemplo no mercado sul/sudeste, que exige o peixe processado, seja filé ou costelinha, que são nossos cortes nobres. Em resumo, tivemos retração de valores ocasionada pela grande oferta de produto acabado no mercado. Isso é fato e é a primeira lei do capitalismo, “oferta e procura”. 

 

A coisa só não ficou pior porque as rações, de forma geral, estão com preços estáveis a mais de um ano e isso minimizou o impacto da redução de preços do pescado na lucratividade da piscicultura. Os momentos de crise são ideais para buscarmos saídas para fugir dela. Como disse anteriormente, da porteira pra fora o piscicultor vem fazendo muito bem a lição de casa. Da porteira pra dentro sempre temos onde agir e melhorar. Não digo para adotarmos a política do “custo zero” ou quanto menor, melhor. Precisamos entender e diferenciar custo de investimento. Custo é aquilo que não traz retorno, já o investimento, após um período, te devolve o dinheiro.

 

Na piscicultura, devemos considerar como investimento: a mão-de-obra, o calcário, adubo utilizado e a ração. Vamos pontuar isso. A mão-de-obra é de extrema importância, pois é ela que cuida de todo o “patrimônio” vivo da piscicultura. O adubo e o calcário interferem diretamente na qualidade da água, que é a “casa” do peixe. Quando temos uma “casa” em ordem somos mais produtivos e assim é com o peixe também. E por último, e tão importante quanto os outros, porém com o maior peso financeiro, a ração. Ela, sozinha interfere no resultado final de várias formas, uma ração de baixa qualidade, por exemplo, pode piorar a qualidade da água. Com isso serão necessários mais “gastos” com correções.

 

O outro fator que devemos inserir em nossos parâmetros, enquanto piscicultores, é o fator de conversão alimentar (FCA), que nada mais é que a quantidade de ração que um peixe come para produzir um quilo de carne. Em atividades como o frango e suíno de corte esse parâmetro já está incorporado ao dia-dia do produtor. E quais são os valores ideais? Bom, seria excelente que fosse 1kg, mas temos como média nos tambaquis de Rondônia, 1,8kg ou seja, o peixe come 1,8 kg de ração e produz 1,0 kg de carne. A grande maioria dos produtores dizem que a ração compõe 80% da despesa financeira da atividade, com isso podemos dizer que a cada 0,1 kg que o FCA seja melhorado temos 4% de melhoria no resultado financeiro. Como disse anteriormente este conceito precisa fazer parte da vida do piscicultor.

 

Finalizando, para que a “crise” passe com o menor impacto possível devemos fazer a lição de casa nas propriedades, melhorando nosso manejo e nosso FCA, para que o impacto financeiro da ração seja menor na totalidade das despesas da piscicultura. Numa “crise”, como a que estamos atravessando, quem produzir eficientemente, ou seja, ter um peixe com menor custo por kg, terá uma rentabilidade interessante, mesmo com a baixa nos valores pagos. Acredito que com a melhora na economia do país de forma geral teremos bons anos à frente e com o aumento da renda as pessoas investirão mais em alimentação, fomentando nosso mercado.

 


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